O Google aprofundou sua entrada na IA para o mercado jurídico ao anunciar, em 25 de agosto, o Gemini Enterprise for Legal, um ambiente de inteligência artificial voltado a escritórios de advocacia e departamentos jurídicos corporativos. De acordo com as informações apresentadas, a proposta vai além de um chatbot generalista e mira a integração com sistemas, dados e políticas de governança já usados pelos profissionais.
O movimento ocorre enquanto outros atores aceleram suas próprias frentes. A Thomson Reuters revelou o Thomson, seu primeiro LLM proprietário, com investimento aproximado de US$ 40 milhões; a Harvey apresentou o Tenet, modelo open-weight pós-treinado para tarefas jurídicas extensas; e a Anthropic lançou uma expansão do Claude para a indústria legal. Segundo a companhia, seu acervo editorial e de dados especializados é parte central da estratégia.
Também chama atenção a decisão da Kirkland & Ellis de destinar US$ 500 milhões em três a quatro anos para desenvolver uma plataforma própria de IA, com início de cerca de US$ 100 milhões em 2026 e participação de aproximadamente 250 advogados e mais de 180 profissionais de tecnologia, conforme informações divulgadas pela Reuters. O conjunto de anúncios sinaliza que a disputa inclui quem controla modelos, dados, conhecimento institucional e o próprio fluxo de trabalho jurídico.
O que o Google colocou em campo e por que isso importa
Estruturado pelo Google Cloud, o Gemini Enterprise for Legal foi concebido como um ambiente especializado para a atividade jurídica. A plataforma combina agentes capazes de executar tarefas, habilidades específicas, conexões com sistemas corporativos e mecanismos de governança. Entre as aplicações demonstradas estão revisão e negociação de contratos, pesquisa jurídica, criação de playbooks, acompanhamento regulatório e atendimento a solicitações relacionadas à proteção de dados.
Segundo as informações divulgadas, o desenvolvimento contou com a participação de escritórios como Cleary Gottlieb, Freshfields, Weil e Williams & Connolly, aproximando o produto das exigências reais da advocacia sofisticada. O Google também pretende integrar o ambiente a fornecedores já utilizados pelo setor, como plataformas de gestão documental, descoberta eletrônica, assinatura e informação jurídica. A disputa, portanto, não é apenas por um modelo mais “inteligente”, mas por colocar essa inteligência no fluxo cotidiano do advogado, respeitando confidencialidade, regras de acesso e o conhecimento específico de cada organização.
Dados como trunfo: a estratégia da Thomson Reuters
Um dia antes do anúncio do Google, a Thomson Reuters apresentou o Thomson, LLM proprietário desenvolvido a partir de base open source e pós-treinado com seu acervo de conteúdo e conhecimento profissional. A companhia cita aproximadamente US$ 40 milhões em talentos e capacidade computacional, e reporta um patrimônio de 175 anos de dados e conteúdos distribuídos em ativos como Westlaw, Practical Law, Checkpoint e Reuters. Segundo a empresa, menos de 10% desse conteúdo havia sido usado no treinamento inicial do modelo.
A organização já começou a empregar o Thomson no CoCounsel Legal, inicialmente em atividades estruturadas de análise documental, e lançou uma nova geração do produto para conectar pesquisa, análise, elaboração, verificação e outros fluxos em um único ambiente. O enfoque combina conteúdo + modelo + software + workflow, sustentando a visão de que dados proprietários confiáveis e organizados podem se tornar uma vantagem tão relevante quanto o próprio modelo.
Legaltechs e integrações: Harvey e Anthropic entram na disputa
Em 20 de agosto, a Harvey apresentou o Tenet, seu primeiro modelo open-weight pós-treinado, baseado no Kimi K3 e desenvolvido em colaboração com a Fireworks, voltado a trabalhos jurídicos de longa duração. A empresa explica que sua agenda de pesquisa busca tanto avançar a inteligência jurídica com pesos abertos quanto permitir que escritórios construam sistemas especializados e detenham sua própria inteligência.
Já a Anthropic ampliou, em maio, a oferta do Claude para a indústria legal, com mais de 20 conectores MCP e 12 plugins destinados a atividades e áreas do Direito. Segundo a companhia, profissionais jurídicos figuravam entre os usuários mais engajados do Claude Cowork, o que motivou a aproximação do produto aos sistemas que sustentam a prática: contratos, pesquisa, gerenciamento de documentos, e-discovery, data rooms e acervos internos de precedentes.
Quando o conhecimento vira infraestrutura: o plano da Kirkland & Ellis
A Kirkland & Ellis anunciou um investimento de US$ 500 milhões ao longo de três a quatro anos para desenvolver uma plataforma própria de IA, com início de cerca de US$ 100 milhões em 2026 e envolvimento de aproximadamente 250 advogados e mais de 180 profissionais de tecnologia, segundo a Reuters. O escritório registrou receita aproximada de US$ 10,6 bilhões no ano anterior, o que ajuda a dimensionar a escala do projeto.
O objetivo estratégico destacado é transformar precedentes, modelos de documentos, metodologias, teses e processos internos em conhecimento institucional executável. Integrada aos sistemas do escritório, a IA pode aplicar padrões internos em revisões, localizar precedentes, identificar divergências contratuais e preparar materiais para análise humana. Isso não elimina o julgamento jurídico, mas pode reduzir etapas manuais antes do ponto em que a decisão do profissional agrega maior valor.




