Um relatório das Nações Unidas alerta para a expansão de golpes que combinam ferramentas digitais, inteligência artificial e estruturas criminosas organizadas. No Brasil, a Global Anti-Scam Alliance (GASA) estimou que 16,5 milhões de pessoas perderam dinheiro em fraudes entre março de 2025 e fevereiro de 2026, com prejuízos de R$ 21,2 bilhões.
Publicado em setembro de 2026 pelo Instituto Inter-regional de Pesquisa sobre Crime e Justiça das Nações Unidas (UNICRI), o estudo Crime and Justice in a Changing World descreve redes que conectam atividades ilegais, serviços digitais e movimentação financeira entre países. A análise chama atenção para a dificuldade de investigar crimes que podem envolver diferentes plataformas, intermediários e jurisdições.
O que a inteligência artificial muda nos golpes
Segundo o relatório, ferramentas de inteligência artificial generativa podem facilitar a produção de mensagens fraudulentas e a simulação de identidades. Serviços ilícitos oferecidos como cybercrime-as-a-service, ou seja, ferramentas e serviços criminosos disponíveis para uso de terceiros, também podem ajudar redes a dividir tarefas e ampliar suas operações.
Isso não significa que todo golpe utilize inteligência artificial. Fraudes de personificação também ocorrem por ligações, mensagens e anúncios, com criminosos fingindo representar bancos, órgãos públicos ou pessoas conhecidas. A ONU não apresenta uma estimativa verificada da proporção de golpes no Brasil cometidos com IA.
Estimativas e registros medem aspectos diferentes
Os números brasileiros de prejuízo são estimativas de pesquisa da GASA, não contagens policiais. A entidade também estimou cerca de 34 bilhões de abordagens fraudulentas no período. Esse dado se refere a tentativas, não a crimes consumados ou a vítimas distintas: uma pessoa pode receber diversas abordagens sem perder dinheiro.
Já o Fórum Brasileiro de Segurança Pública informou que foram registradas 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025, com base no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O total inclui fraudes presenciais e digitais e não pode ser comparado diretamente à estimativa da GASA, pois os estudos usam métodos e conceitos diferentes.
O UNICRI também cita uma pesquisa internacional da GASA realizada em 2025, em 42 países e mercados: 57% dos adultos entrevistados disseram ter vivenciado algum golpe em 12 meses, enquanto 23% relataram perdas financeiras. Os percentuais não significam que 57% perderam dinheiro e não são resultados de um levantamento próprio da ONU feito em 2026.
Como agir após uma fraude com Pix
O Banco Central orienta quem fez uma transferência suspeita a contatar imediatamente o banco por canais oficiais e solicitar a contestação pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). O pedido pode ser feito em até 80 dias após a transação, mas agir rapidamente pode aumentar a possibilidade de bloqueio dos recursos. A devolução não é automática e depende da análise do caso e da existência de valores recuperáveis.
É recomendável guardar comprovantes e conversas e registrar boletim de ocorrência. Pedidos urgentes de dinheiro ou de códigos de autenticação devem ser confirmados por um canal independente, mesmo quando parecem vir de conhecidos. A contestação bancária não substitui a comunicação às autoridades policiais.
O combate às fraudes depende da cooperação entre instituições financeiras, empresas de telecomunicações, plataformas e autoridades. O relatório do UNICRI também defende cooperação internacional e salvaguardas para proteger direitos fundamentais no uso de tecnologias de investigação, incluindo privacidade e proteção de dados.


