Projeto BEST, em Hefei, avança com ímã supercondutor de 582 toneladas e mira demonstrar eletricidade por fusão até 2030, enquanto a China busca liderança em Hélio-3 e domínio das terras raras
O novo tokamak BEST, em montagem em Hefei, é o centro da estratégia chinesa para a fusão nuclear e coloca o Hélio-3 no radar da geopolítica lunar. O país ergue uma infraestrutura de ponta e verticaliza a cadeia de suprimentos.
O feito mais recente, um superímã de 582 toneladas, reforça a aposta nos condutores REBCO. Com engenharia doméstica, a China mira demonstrar eletricidade por fusão perto de 2030, passo decisivo para a matriz limpa.
Os avanços e números citados, como o recorde do EAST e o ímã do BEST, foram divulgados por CGTN, Global Times, Forbes, Academia Chinesa de Ciências e NASA, conforme as publicações originais.
Como funciona o tokamak BEST e os superímãs REBCO
Em 27 de junho de 2026, Hefei testou um ímã toroidal de 582 t, 21 m de comprimento, 12 m de largura e 3,3 m de altura. É o maior já feito para um reator de fusão, com 6,03 MJ de energia armazenada e 60 kA de corrente estável, segundo a CGTN e o Global Times.
Esse componente integra o BEST, o Burning Plasma Experimental Superconducting Tokamak. A montagem avança, a conclusão está prevista até 2027, e a meta é demonstrar eletricidade por fusão por volta de 2030, de acordo com a Forbes.
No tokamak, o plasma supera 100 milhões °C, por isso é mantido em levitação magnética por campos intensos. Essa “gaiola invisível” impede contato com as paredes, preserva o vácuo e a estabilidade do combustível.
O solenoide central, de alta temperatura, atua como gerador de corrente do plasma e foi descrito por pesquisador do ASIPP como a “vela de ignição” do motor de fusão, imagem que resume seu papel crítico.
Os REBCO são fitas supercondutoras de alta temperatura que operam perto de 20 K. Em comparação ao NbTi a 4 K, simplificam a criogenia e permitem campos mais intensos em projetos compactos, aponta o MIT e o Physics World.
Estudos do MIT validam ímãs REBCO com campos acima de 12 T em volume útil para confinamento. Ensaios de grande escala reportaram 20 T, reforçando o caminho de alto campo para a próxima geração de tokamaks.
O EAST, em operação desde 2006, sustentou modo de alto confinamento por 1.066 segundos, pouco mais de 17 minutos, a cerca de 100 milhões °C em 2025. O recorde foi noticiado pelo Global Times.
Cadeia de materiais críticos e a vantagem chinesa
O BEST está no CRAFT, uma instalação com bancadas para ímãs, aquecimento, mantas reprodutoras de trítio e manuseio de combustível. O objetivo é autossuficiência em materiais e integração de sistemas.
As fitas REBCO usam variantes YBCO e GdBCO. O arranjo cerâmico ultrafino, sobre Hastelloy e estabilizado com cobre e prata, sustenta alta densidade de corrente em campos que superam 20 T, segundo o IOPscience.
Além dos superímãs de terras raras, entram em cena lítio, tungstênio, berílio, nióbio, háfnio, tântalo e hélio. Cada material enfrenta calor, radiação e esforços mecânicos extremos, diz a IAEA e o ITER.
Para autossuficiência em trítio, a solução é a manta regeneradora com lítio-6 e lítio-7, que convertem nêutrons em novo trítio. É elemento estratégico, também vital às baterias, destaca a IAEA.
As superfícies de face de plasma usam tungstênio, que combina altíssimo ponto de fusão e baixa absorção de trítio. O berílio atua como multiplicador de nêutrons, função que o ITER vem revisando a favor do tungstênio.
Nem tudo é REBCO, o NbTi e o Nb3Sn seguem úteis em bobinas de campos mais moderados, graças à maturidade industrial e robustez, conforme literatura técnica citada no arXiv.
O hélio-4 é insumo duplo, resfria os ímãs perto do zero absoluto e pode atuar como gás de varredura para extrair trítio, afirma a ScienceDirect. Sem ele, o aparato supercondutor não opera.
A China concentra cerca de 70% da mineração de terras raras e 90% a 91% do refino global, além de aproximadamente 94% da produção de ímãs pesados, segundo The Diplomat e Discovery Alert.
Esse domínio da mina ao ímã dá ao país vantagem estrutural difícil de replicar no curto prazo, sustenta a China Briefing. O BEST é parte visível de uma política industrial de décadas.
O Global Times relata uma cadeia doméstica completa de fusão, da fibra supercondutora ao aço e criogenia. A China também responde por mais de 9% dos componentes centrais do ITER.
Hélio-3 e a nova corrida espacial lunar
O Hélio-3 é raríssimo na Terra, blindada pelo campo magnético. Estima-se haver cerca de 100 kg disponíveis, em geral como subproduto do decaimento do trítio militar, segundo a NASA e o New Space Economy.
Na Lua, sem atmosfera densa, o vento solar fixou Hélio-3 no regolito. Estudos citam reservas da ordem de mais de 1 milhão de toneladas, com 4 a 20 ppb em média, afirma o IFRI e o New Space Economy.
É preciso relativizar, partes por bilhão implicam escavar centenas de milhões de toneladas por tonelada de gás. O desafio logístico e energético segue monumental, ressalta a literatura citada.
O apelo vem do potencial, 1 kg de Hélio-3 fundido com deutério pode liberar energia equivalente a cerca de dezenove megawatts-ano, e quase sem nêutrons, conforme a NASA.
Esse contraste reacende a competição, com Estados Unidos, China, Rússia e Índia mapeando polos lunares e mares basálticos ricos em ilmenita. O Hélio-3 virou ativo simbólico e estratégico.
Há ceticismo, análises destacam que custos de mineração e transporte são proibitivos hoje. O New Space Economy aponta ausência de mercado sustentável no curto prazo, em linha com críticas acadêmicas.
Ainda assim, dominar confinamento magnético e materiais extremos é pré-requisito para um futuro ciclo de Hélio-3. O avanço do BEST pavimenta essa via técnica de longo prazo.
Metas até 2027, desafios até 2030 e a pauta de segurança
O cronograma prevê o BEST concluído até 2027, testes integrados e a demonstração elétrica de fusão perto de 2030, segundo a Forbes. A meta é ambiciosa, porém alinhada ao ganho recente de maturidade.
Eventos sísmicos e falhas humanas suscitam comparações com a fissão. Em fusão, não há risco de reação em cadeia, o plasma esfria ao perder confinamento, e rejeitos de longa duração são muito menores.
Isso não elimina desafios, materiais se ativam sob nêutrons do D-T, e o divertor encara 10 a 20 MW/m² a até 2.000 °C, alerta a IAEA. Sistemas de proteção, redundância e robótica são essenciais.
O CRAFT integra bancadas para mantas regeneradoras, ímãs e aquecimento, reduzindo riscos com testes de componentes antes da integração total. É engenharia de protótipo com foco em confiabilidade.
Do ponto de vista industrial, ímãs de alto campo geram spillovers para ressonância magnética, aceleradores e até propulsão espacial, segundo AIP Publishing. O efeito arrasta cadeias e qualifica fornecedores.
Na diplomacia, o “Sol Artificial” reforça o soft power chinês, projeta liderança climática e tecnológica, e amplia a voz do país em fóruns de ciência, relata a Academia Chinesa de Ciências.
O balanço é claro, a China somou recordes no EAST, energizou superímãs de terras raras no BEST e sustenta a cadeia de terras raras. Agora, mira fechar o ciclo do trítio e estudar rotas para o Hélio-3.
Se a meta de 2030 se confirmar, o país entregará um marco energético. Mesmo se atrasar, a infraestrutura instalada e o domínio de REBCO e de materiais críticos já mudaram o jogo da fusão nuclear.
No horizonte, o Hélio-3 segue como aposta de longo prazo, técnica e economicamente desafiadora. A corrida lunar não é só por recursos, mas por capabilidades industriais, jurídicas e operacionais.
Entre o laboratório e a rede elétrica, a ponte é feita de engenharia, dados e cadeias robustas. É exatamente aí que o BEST busca afirmar a China na vanguarda da fusão e do Hélio-3.



