A China respondeu por 56,1% das entregas mundiais de navios em 2025, segundo dados do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação do país. A participação é calculada em toneladas de porte bruto, medida da capacidade de carga das embarcações, e não corresponde à fatia do número de navios nem do valor comercial.
O contraste expõe o desafio brasileiro: recuperar uma indústria naval não depende apenas de estaleiros e equipamentos, mas de encomendas regulares, fornecedores qualificados e capacidade de concluir obras com qualidade, custo e prazo competitivos. O caminho não é reproduzir a escala chinesa, mas atender a segmentos ligados à economia e à Defesa do Brasil.
Em 2025, os estaleiros chineses entregaram cerca de 53,69 milhões de toneladas de porte bruto. O país também recebeu novos pedidos equivalentes a aproximadamente 107,82 milhões de toneladas e concentrava 66,8% da carteira mundial de encomendas, indicador de trabalho previsto, não de navios já concluídos.
O ecossistema por trás da escala chinesa
A liderança da China está ligada a uma rede industrial que reúne estaleiros, fornecedores de aço, motores e componentes, crédito, portos e empresas de navegação. A atividade exportadora gera cargas para o transporte marítimo, enquanto armadores precisam de embarcações para atender às rotas comerciais. Esse conjunto sustenta encomendas e produção em séries amplas.
O financiamento e as políticas industriais também contribuíram para a expansão. Um estudo do Center for Strategic and International Studies estimou cerca de US$ 132 bilhões em formas de apoio financeiro estatal a empresas chinesas de navegação e construção naval entre 2010 e 2018, principalmente por meio de financiamento bancário. A estimativa tem metodologia e período próprios e não deve ser somada diretamente a outros cálculos de apoio.
Parte das competências usadas em navios civis, como construção modular, soldagem de grandes estruturas e gestão de fornecedores, também é relevante para a indústria militar. Isso não torna as capacidades equivalentes: navios de guerra exigem requisitos próprios, incluindo sensores, armamentos e sistemas de combate.
Onde o Brasil pode buscar escala
O Brasil tem oportunidades em embarcações de apoio offshore, rebocadores, barcaças, empurradores e meios para navegação interior. São segmentos associados a atividades como petróleo e gás, operações portuárias e transporte em hidrovias. Projetos padronizados e encomendas seriadas podem ajudar estaleiros a aperfeiçoar processos, desde que haja compradores e condições para competir em preço, prazo e qualidade.
Reparos, docagens e modernizações também podem manter instalações e profissionais especializados em atividade. Em Pernambuco, a trajetória do Estaleiro Atlântico Sul, no complexo de Suape, ilustra tanto a ambição de construir grandes navios mercantes quanto os riscos de depender de uma carteira concentrada de encomendas. A existência de docas e equipamentos, por si só, não assegura utilização contínua ou competitividade.
O Fundo da Marinha Mercante pode apoiar essa atividade. Em março de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos divulgou uma carteira de projetos associada ao fundo de aproximadamente R$ 41,7 bilhões, incluindo construções, reparos, docagens e modernizações. O valor anunciado não equivale automaticamente a contratos assinados, recursos desembolsados ou embarcações entregues. A execução das obras é que permitirá avaliar o efeito produtivo.
Continuidade industrial também importa para a Defesa
A indústria naval pode contribuir para que o país construa, modernize e mantenha embarcações, além de preservar conhecimentos técnicos e uma rede de fornecedores. Essa base tem relevância para a Marinha do Brasil e para a sustentação dos meios navais, embora estaleiros civis não possam ser considerados automaticamente aptos a fabricar navios militares, que exigem investimentos e integração de sistemas específicos.
O Programa Fragatas Classe Tamandaré, com quatro navios construídos no Brasil em parceria tecnológica e industrial internacional, mobiliza construção modular, integração e fornecedores especializados em Itajaí, Santa Catarina. A continuidade dos trabalhos e a possibilidade de aproveitar equipes e competências em novas atividades influenciam o alcance industrial do programa.
Para avaliar a recuperação do setor, anúncios de investimento e projetos aprovados não bastam. Importam também obras iniciadas e concluídas, cumprimento de prazos, utilização das instalações, desempenho dos estaleiros e atividade recorrente para fornecedores. A lição da China é que escala exige integração e demanda persistente; para o Brasil, uma estratégia mais realista é combinar segmentos especializados, reparos, navegação interior e programas navais com uma carteira diversificada.




