Uma mensagem militar cifrada de 1809, relacionada a uma ordem de Napoleão Bonaparte para o general Auguste de Marmont, foi reconstruída com auxílio de inteligência artificial após 217 anos. O engenheiro Carter Church usou o modelo GPT-6 Astra para analisar aproximadamente 1.300 sinais manuscritos e comparar as hipóteses de leitura com registros históricos.
A correspondência trata da distribuição de forças francesas e aliadas nas semanas anteriores à guerra contra a Áustria, iniciada em abril de 1809. O documento não foi escrito pessoalmente por Napoleão: sua origem está ligada ao quartel-general de Eugène de Beauharnais, vice-rei da Itália, que recebeu a orientação de transmitir informações cifradas a Marmont.
Como a inteligência artificial foi usada
Church partiu de uma reprodução do documento publicada em 1969 na revista francesa Revue historique des Armées. A imagem tinha resolução limitada: uma linha inicial em francês era legível, enquanto outras 24 linhas continham números, letras e sinais manuscritos. Segundo o pesquisador, o modelo trabalhou por cerca de seis horas na transcrição e análise de padrões.
A cifra era uma substituição homofônica, método que permite representar uma mesma letra por símbolos diferentes. O conjunto analisado tinha 155 sinais distintos, alguns correspondentes a palavras completas. A reconstrução também aproveitou 33 correspondências entre símbolos e letras publicadas anteriormente pelo historiador da criptologia Daniel Tant, que permitiam interpretar 435 unidades da mensagem.
O que a mensagem revela
O texto reconstruído reúne informações sobre posições e efetivos atribuídos a tropas francesas e aliadas, incluindo forças comandadas por Davout e Masséna e contingentes bávaros, poloneses e saxões. Também menciona movimentações austríacas e orientações para Marmont. Os números devem ser entendidos como dados transmitidos naquela correspondência, não como uma contagem independente e necessariamente exata dos soldados mobilizados.
A decifração também levou à revisão de uma data atribuída ao documento. Embora um catálogo de cifras históricas o listasse como sendo de 1807, a comparação do conteúdo com ordens conhecidas e o contexto militar apontou para março de 1809. A identificação, portanto, dependeu da combinação entre análise computacional e confronto com fontes históricas.
O papel da IA e os limites da descoberta
Church disponibilizou documentação técnica, a chave reconstruída e programas para reproduzir a leitura. Ainda assim, a interpretação de alguns sinais permanece incerta, e a divulgação de arquivos não equivale a uma auditoria acadêmica independente e integral de todas as etapas.
O caso mostra como ferramentas de inteligência artificial podem apoiar a transcrição e a análise de documentos históricos, mas não demonstra que os mesmos métodos sejam capazes de quebrar sistemas militares atuais. A cifra napoleônica era um método histórico de substituição, e a solução dependeu também de uma chave parcial já conhecida, de verificações computacionais e da avaliação do contexto por pesquisadores.




