Europa busca soberania digital e autonomia tecnológica.

Soberania digital na Europa: Schleswig-Holstein migra e-mail, adota LibreOffice e planeja Linux com economia acima de 15 milhões de euros

A busca por soberania digital ganhou impulso na Europa com o caso de Schleswig-Holstein, na Alemanha, que transformou a redução de dependência de plataformas proprietárias em política pública. Em 2026, o projeto segue avançando, com mudanças que vão de e-mail e colaboração a sistema operacional e telefonia.

De acordo com o governo estadual, em outubro de 2025 foi concluída a migração do sistema de e-mail da administração: mais de 40 mil caixas postais e mais de 100 milhões de mensagens e registros de calendário foram transferidos em cerca de seis meses. Saíram Microsoft Exchange e Outlook, entraram Open-Xchange e Thunderbird.

Conforme informou a administração de Schleswig-Holstein, em dezembro de 2025 o LibreOffice tornou-se o padrão obrigatório para aplicações de escritório nos órgãos estaduais. O plano oficial também prevê Nextcloud para colaboração e a transição do Windows para Linux. Em agosto de 2026, o governo anunciou a transformação da infraestrutura de telefonia com tecnologia aberta no projeto OSKAR.

O que mudou na administração de Schleswig-Holstein

A substituição do correio eletrônico alcançou órgãos que vão da Chancelaria e ministérios à Justiça e Polícia estadual, dentro de uma administração com aproximadamente 30 mil servidores públicos. Não se trata de um piloto restrito, mas de mudanças estruturais na infraestrutura utilizada diariamente pelo Estado, tratadas como arquitetura tecnológica e não como trocas isoladas de aplicativos.

LibreOffice como padrão e a transição para Linux e telefonia aberta

Com o LibreOffice estabelecido como padrão em dezembro de 2025, quase 80% dos postos de trabalho, excluída a administração tributária, já utilizavam a solução aberta naquele momento. Nos demais, havia dependências técnicas que ainda exigiam Word, Excel ou outras ferramentas da Microsoft, o que caracteriza uma migração progressiva condicionada à compatibilidade dos sistemas.

O plano estadual prevê Nextcloud para colaboração, Open-Xchange para e-mail e componentes abertos para substituir outras estruturas proprietárias, com a migração do Windows para Linux no horizonte. Em agosto de 2026, o governo comunicou que a infraestrutura de telefonia também passará por transformação baseada em tecnologia aberta dentro do projeto OSKAR, medida que sucede a adoção de LibreOffice, Open-Xchange, Nextcloud e Nubus, além do início da transição do sistema operacional para Linux.

Custos, investimentos e a busca por soberania digital

Em dezembro de 2025, o governo de Schleswig-Holstein estimou economia superior a 15 milhões de euros em licenças graças às soluções abertas. Ao mesmo tempo, previu cerca de 9 milhões de euros em investimentos extraordinários durante 2026 para migração e desenvolvimento. A experiência evidencia que software de código aberto não significa infraestrutura sem custos, pois migração, treinamento, suporte, integração, segurança, desenvolvimento e manutenção continuam exigindo recursos.

Segundo o governo estadual, o objetivo é reduzir a dependência técnica e econômica de fornecedores individuais e ampliar a capacidade do Estado de controlar sua própria infraestrutura, um núcleo da chamada soberania digital. O fato de o código ser aberto não o torna automaticamente mais seguro: os benefícios potenciais incluem auditabilidade, padrões abertos, possibilidade de adaptação e menor risco de aprisionamento tecnológico, mas tudo depende de implementação, governança, atualizações e equipes qualificadas.

Dinamarca em piloto e limites do discurso adeus às Big Tech

Em junho de 2025, o Ministério da Digitalização da Dinamarca iniciou um projeto-piloto com o Collabora, baseado no LibreOffice, para atividades administrativas de um grupo de funcionários. O governo dinamarquês foi cauteloso ao explicar a iniciativa: não anunciou abandono imediato de grandes plataformas, e sim testes para reduzir o risco de dependência excessiva de poucas grandes empresas.

As informações disponíveis indicam movimentos concretos de substituição de componentes da Microsoft por tecnologias abertas em Schleswig-Holstein e experiências semelhantes em outras administrações, mas não autorizam afirmar que governos europeus estejam, de forma coletiva, trocando Gmail por Proton Mail, Google por DuckDuckGo, Chrome por Brave, WhatsApp por Signal ou Google Maps por Organic Maps. O debate central é a dependência tecnológica, especialmente em sistemas públicos essenciais, nos quais a definição de um grau aceitável de dependência para capacidades críticas se torna estratégica, inclusive para áreas como Defesa, fortemente apoiadas em software, redes e sistemas de comando e controle.

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