A Administração Nacional de Produtos Médicos da China (NMPA) concedeu, em 13 de março de 2026, registro comercial ao NEO, sistema de interface cérebro-computador desenvolvido pela Neuracle Technology em colaboração com a Universidade de Tsinghua. Segundo análise de Chen et al. (2026), trata-se do primeiro dispositivo de BCI invasivo com aprovação regulatória para uso clínico rotineiro em qualquer país, um marco que desloca a tecnologia do ambiente exclusivamente experimental para a prática terapêutica.
O NEO adota uma arquitetura epidural minimamente invasiva, com eletrodos posicionados sobre a dura-máter, enquanto a Neuralink, empresa norte-americana fundada por Elon Musk, segue a rota intracortical, com microeletrodos inseridos diretamente no córtex. De acordo com Liu et al. (2025) e Musk; Neuralink (2019), são filosofias de engenharia distintas: o NEO privilegia segurança e estabilidade de longo prazo, a Neuralink busca maior largura de banda de sinais neurais.
Nesse contexto, pesquisadores descrevem uma disputa tecnológica mais ampla, referida no plano discursivo como ‘guerra fria biológica’: além de algoritmos e resultados clínicos, pesa a dependência de minerais críticos e terras-raras necessários à fabricação desses dispositivos, cadeias hoje concentradas em poucos países, com destaque para a China (Behrsing et al., 2024; U.S. Geological Survey, 2026). Ambas as plataformas, porém, têm finalidade médica declarada: restituir função motora a pessoas com lesão medular, e não criar capacidades sobre-humanas.
NEO: a BCI epidural que aposta em menor invasividade e uso domiciliar
De acordo com Liu et al. (2025), a parte implantável do NEO reúne um invólucro de titânio de tamanho aproximado ao de uma moeda, uma bobina de indução e duas tiras de eletrodos epidurais com oito contatos no total, cada um com 3,2 mm de diâmetro. A cirurgia abre uma janela no crânio para suturar os eletrodos sobre a dura-máter, sem penetrar o tecido nervoso. O sistema não possui bateria interna: a alimentação ocorre por indução eletromagnética via bobina externa fixada magneticamente sobre a pele, que também transmite os dados captados por Bluetooth a um processador que aciona, sem fio, uma luva robótica pneumática.
Em ensaio clínico aprovado pelo comitê de ética do Hospital Xuanwu e registrado como NCT05920174, um paciente com lesão medular completa em nível C4 usou o NEO por nove meses em casa. Segundo Liu e colegas, os resultados incluíram 0,91 de média na detecção de eventos de preensão, 100% de sucesso em testes de transferência de objetos com o sistema frente a 35% sem ele, ganho de 5 pontos na escala motora de membros superiores do exame ISNCSCI e aumento de 27 pontos no Action Research Arm Test (ARAT). Houve ainda sinais eletrofisiológicos de reorganização neural, com aumento de até 12,7 microvolts no potencial evocado somatossensitivo do nervo mediano. A equipe descreveu o implante como procedimento de pouco mais de 90 minutos, com alta em até 24 horas.
Neuralink: alta densidade intracortical e robótica de precisão
No artigo técnico de 2019, Musk; Neuralink detalham arranjos flexíveis de eletrodos, ou threads, com até 3.072 eletrodos distribuídos em 96 fios por array, inseridos por um robô capaz de implantar 6 fios ou 192 eletrodos por minuto com precisão micrométrica, evitando vasos superficiais do córtex. O pacote eletrônico inclui ASICs para amplificação e digitalização dos sinais, abriga-se num módulo com menos de 23 × 18,5 × 2 mm e utiliza invólucro de titânio. Em roedores, a plataforma alcançou até 85,5% de rendimento na captação de disparos neuronais, conforme comentário de Pisarchik; Maksimenko; Hramov (2019).
A opção intracortical oferece maior riqueza de informação ao acessar unidades neuronais individuais, porém envolve maior complexidade cirúrgica e desafios de estabilidade de longo prazo, como deslocamento de eletrodos e formação de tecido glial em torno do sítio de inserção, apontam os autores.
Segurança, manutenção e autonomia: o que muda para o paciente
Segundo Liu et al. (2025), a abordagem epidural do NEO reduz riscos associados à penetração do tecido cerebral, como hematomas, hemorragias e edema, além de mitigar respostas imunológicas crônicas observadas em arranjos intracorticais. O desenho sem bateria elimina cirurgias de substituição de fonte de energia e favorece uso domiciliar contínuo. Os autores indicam também menor necessidade de recalibração frequente.
Na Neuralink, a prioridade é a largura de banda dos sinais, com potencial para tarefas mais complexas de controle motor e comunicação, ao custo de riscos iniciais maiores e monitoramento atento da integridade eletroquímica dos microeletrodos ao longo do tempo (Musk; Neuralink, 2019). Em ambos os casos, a finalidade explicitada é restituir autonomia funcional a pessoas com lesão medular, e não ampliar capacidades além dos limites humanos fisiológicos.
Minerais críticos, terras-raras e a ‘guerra fria biológica’
As duas plataformas dependem de uma base material semelhante: platina e irídio em eletrodos por sua biocompatibilidade e resistência à corrosão, titânio nos encapsulamentos, tântalo em capacitores e ouro em interconexões eletrônicas. No NEO, o acoplamento por indução de curto alcance é tipicamente viabilizado por ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB), feitos de elementos de terras-raras como neodímio e praseodímio, por vezes aditivados com disprósio para estabilidade térmica. Os processadores e cadeias de semicondutores relacionados podem envolver elementos como gálio e germânio (Behrsing et al., 2024; U.S. Geological Survey, 2026).
Conforme o USGS (2026), os Estados Unidos seguem dependentes de importações chinesas para 14 de 33 minerais críticos sensíveis à sua economia, enquanto a China mantém restrições de exportação sobre 14 minerais estratégicos destinados aos EUA. Essa teia de dependências ajuda a explicar por que a disputa em neuroengenharia é descrita como uma ‘guerra fria biológica’ de caráter científico, industrial e mineral.
No campo regulatório e da translação clínica, a análise de Chen et al. (2026) mapeia 134 ensaios clínicos de BCI registrados na China até junho de 2026, além de 26 estudos conduzidos por pesquisadores e 5 produtos aprovados pela NMPA, com atividades concentradas sobretudo em Guangdong, Shanghai e Pequim. Em paralelo, segundo Poo (2024), o país publicou diretrizes éticas específicas para o uso de interfaces cérebro-computador, evidenciando o esforço de governança dessa tecnologia.




