Uma operação de espionagem digital atribuída ao grupo russo APT28 atingiu um estaleiro de um país europeu integrante da OTAN, segundo investigação divulgada pela Symantec em 20 de outubro de 2026. O caso mostra como redes e informações da indústria naval podem ser alvos de inteligência estrangeira e serve de alerta para a proteção da infraestrutura marítima brasileira.
A atividade maliciosa no estaleiro começou em 24 de julho de 2026, após a abertura de um documento do Microsoft Word recebido por e-mail. A Symantec identificou reconhecimento da rede, obtenção de credenciais e a instalação de um túnel SSH persistente, que permitia aos invasores manter comunicação com o ambiente comprometido. A intrusão durou pelo menos dois meses.
A empresa não identificou as organizações nem os países atingidos. Além do estaleiro, os alvos incluíram uma fabricante de motores para aeronaves militares e um órgão de segurança pública. O governo dos Estados Unidos associa a APT28, também conhecida como Fancy Bear ou Swallowtail, à inteligência militar russa, o GRU.
O que a investigação confirmou
Os pesquisadores identificaram o uso do HOOKEDGE, programa que possibilitou a comunicação dos invasores com o computador comprometido. Também encontraram um carregador malicioso até então não documentado, chamado ld.exe, capaz de executar uma carga descriptografada na memória. Como essa carga não foi recuperada, sua finalidade permaneceu desconhecida.
O relatório não demonstra que os invasores controlaram embarcações, alteraram sistemas de combate, interromperam a construção naval ou obtiveram projetos militares específicos. A possível exposição de propriedade intelectual e informações estratégicas é uma preocupação, mas a extensão dos dados acessados não foi determinada.
Essa distinção é importante: invadir computadores de um estaleiro não significa, por si só, comprometer as redes operacionais de navios. Ainda assim, dados de engenharia, manutenção, cronogramas e fornecedores podem ter interesse para serviços de inteligência.
Ameaças digitais podem afetar a logística marítima
Estaleiros, portos e empresas de navegação dependem de sistemas digitais para administrar projetos, cargas, tráfego e frotas. Um ataque pode expor informações ou interromper serviços. O efeito depende dos sistemas atingidos: uma falha em redes administrativas não implica automaticamente acesso a comandos de bordo.
Há precedentes de impactos operacionais. Em 2017, o malware NotPetya atingiu a empresa de transporte marítimo Maersk, que estimou perdas de US$ 250 milhões a US$ 300 milhões, incluindo custos de recuperação tecnológica e efeitos nas operações. Em janeiro de 2023, um ataque de ransomware à empresa norueguesa DNV interrompeu servidores do sistema de gestão de frotas ShipManager. A companhia informou que os navios seguiram operando e que seus sistemas locais não foram comprometidos.
A Organização Marítima Internacional recomenda incorporar riscos cibernéticos à gestão da segurança da navegação. Já a Associação Internacional das Sociedades Classificadoras estabeleceu requisitos de resiliência para determinadas novas embarcações e equipamentos. Essas orientações não devem ser generalizadas automaticamente a todos os navios de guerra.
O que está em jogo para a Amazônia Azul
A Marinha do Brasil informa que cerca de 95% do comércio exterior brasileiro circula por via marítima. Por isso, a segurança digital de portos e serviços que apoiam o transporte marítimo pode ter reflexos sobre logística, exportações e abastecimento, conforme o alcance e a duração de um eventual incidente.
Em setembro de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos apresentou iniciativas de Porto 4.0, com sensores, automação, análise de dados e inteligência artificial. Entre elas está a implantação planejada de sistemas de gerenciamento e informação do tráfego de embarcações, como o VTMIS, em portos estratégicos. O anúncio não significa que esses sistemas já estejam todos em operação.
Para o Brasil, proteger a Amazônia Azul também envolve resguardar redes e informações de estaleiros, portos e fornecedores. Medidas como proteger credenciais, controlar acessos de terceiros, separar redes administrativas das operacionais, monitorar incidentes e testar planos de continuidade ajudam a reduzir riscos. A investigação europeia não aponta participação de organizações brasileiras na campanha da APT28, mas evidencia por que a cibersegurança faz parte da proteção da infraestrutura naval.




