A possibilidade de equipamentos estrangeiros serem desativados remotamente, por meio de mecanismos conhecidos como kill switches, é apontada como uma vulnerabilidade para a soberania e a segurança nacional. O alerta foi apresentado por Júlio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), em um simpósio realizado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Na apresentação, intitulada “Soberania Nacional x Ameaça de Kill Switches em Sistemas Estrangeiros”, Shidara reuniu exemplos de restrições de acesso a tecnologias e relatos sobre mecanismos de controle em equipamentos. O evento ocorreu de 29 de setembro a 1º de outubro, durante o XXVIII Simpósio de Aplicações Operacionais em Áreas de Defesa.
Segundo o artigo divulgado pelo Defesa em Foco, a preocupação central é que a dependência de sistemas e componentes de outros países possa limitar seu uso em uma crise ou conflito. O autor defende que o Brasil desenvolva tecnologias próprias em áreas consideradas estratégicas.
Exemplos históricos de restrição de acesso
O texto cita o uso de mísseis Exocet pela Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982. Segundo Shidara, oficiais franceses admitiram décadas depois que o armamento tinha um mecanismo para impedir seu emprego contra embarcações francesas.
O artigo também menciona episódios envolvendo o GPS. Em 1996, os Estados Unidos teriam negado acesso ao sistema à China durante a Terceira Crise do Estreito de Taiwan. Em 1999, a Índia enfrentou restrição semelhante durante a Guerra de Kargil. Shidara relaciona esses casos ao desenvolvimento dos sistemas de navegação Beidou, da China, e NavIC, da Índia.
Para o Brasil, o autor cita relatos do professor Waldemar de Castro Leite Filho sobre negações de acesso ao GPS nos lançamentos do Veículo Lançador de Satélites em 1997 e 1999, no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Ele também menciona questionamentos levantados em 2024 sobre o uso da Starlink pelas Forças Armadas em missões de segurança nacional.
Relatos sobre mecanismos em equipamentos críticos
Entre os casos apresentados, Shidara menciona uma pesquisa de 2012 da Universidade de Cambridge, que teria identificado um backdoor gravado no silício de um FPGA chinês de grau militar. Segundo o artigo, o mecanismo poderia permitir acesso ao controle de armas e de instalações nucleares.
O texto cita ainda uma reportagem da Bloomberg, publicada em 2024, sobre um mecanismo de desativação em máquinas da fabricante holandesa ASML vendidas à taiwanesa TSMC. A reportagem associou o recurso à possibilidade de desativar os equipamentos caso a China invadisse Taiwan. O artigo também faz referência a alegações sobre desempenho limitado de sistemas HIMARS fornecidos à Ucrânia, atribuídas a uma análise publicada em 2025 por Ingo Piepers, fundador do Global4Cast.
Shidara ressalta que a ausência de evidências de interferência em operações anteriores não garante que um equipamento estrangeiro funcionaria da mesma maneira em uma guerra. O texto não apresenta provas de que dispositivos desse tipo estejam instalados em todos os equipamentos citados, mas defende que a possibilidade seja considerada pelos responsáveis por decisões de segurança.
Defesa de autonomia tecnológica
Como resposta, o presidente da AIAB propõe priorizar o desenvolvimento nacional de tecnologias críticas e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros em setores estratégicos. Ele afirma que o primeiro passo é reconhecer a vulnerabilidade e, em seguida, construir vontade política para uma política industrial de longo prazo.
O artigo aponta como referência a política indiana Aatmanirbharta, voltada à autossuficiência. Para Shidara, ampliar a capacidade tecnológica própria é essencial para que o Brasil preserve sua autonomia de decisão em situações de crise.




