Relatório da ONU da CEPAL mapeia oito rupturas geopolíticas e propõe estratégia para a América Latina prosperar com IA, clima e cooperação regional

Documento lançado em 4 de agosto de 2026 detalha ativos estratégicos e dez recomendações em três eixos, reforçando o protagonismo regional na nova ordem multipolar

Apresentado pela CEPAL, o relatório da ONU analisa como a nova geopolítica, com competição entre potências e globalização em transição, redefine os caminhos de desenvolvimento da América Latina e do Caribe.

O estudo parte da constatação de que riscos e oportunidades avançam juntos, e que a região precisa ajustar estratégias para converter ativos em crescimento, inovação e voz internacional, com foco em prosperidade sustentável.

Divulgado em 4 de agosto de 2026, o documento reúne recomendações para governos, setor produtivo, organismos internacionais e sociedade civil, conforme informação divulgada pela CEPAL, órgão da ONU.

Oito rupturas redesenham a geopolítica

A primeira ruptura é a reconfiguração da globalização, com cadeias produtivas mais curtas, regionalização do comércio e busca por resiliência, efeitos que alteram investimentos, logística e padrões de competitividade.

O relatório da ONU indica ainda erosão do multilateralismo, com menor coordenação global, e uma transição de ordem unipolar para ambiente de multipolaridade, que intensifica disputas estratégicas.

Somam-se a transformação do soft power, a polarização política, retrocessos democráticos, e a desinformação potencializada pela inteligência artificial, fatores que afetam confiança social e políticas públicas.

O texto aponta também o enfraquecimento da agenda de igualdade e inclusão, além da redução do consenso internacional sobre mudanças climáticas, com riscos para cooperação e financiamento ambiental.

Ativos estratégicos elevam o potencial latino-americano

A CEPAL destaca abundância de recursos naturais estratégicos, capacidade produtiva instalada, capital humano, grande mercado consumidor e tradição de cooperação regional como vantagens competitivas atuais.

Outro diferencial, a América Latina e o Caribe são zona livre de armas nucleares e registram ausência de guerras entre Estados, ativo diplomático valioso em um cenário global mais instável e propenso a choques.

Entre ativos intangíveis, pesam diversidade cultural, capacidade científica e criatividade, que reforçam o poder brando regional e podem ampliar influência internacional quando combinados a políticas consistentes.

A Comissão alerta, porém, que vantagens não se convertem sozinhas em desenvolvimento, são necessárias instituições sólidas, coordenação entre países e políticas de longo prazo para tracionar resultados.

Dez recomendações em três eixos para prosperar

O relatório da ONU organiza dez recomendações em três eixos estratégicos. O primeiro mobiliza ativos econômicos, naturais, tecnológicos e humanos para elevar crescimento, inovação e produtividade regional.

O segundo eixo foca governança democrática, qualidade das instituições públicas e capacidade de formular políticas de Estado diante de choques externos, reduzindo volatilidade e melhorando a execução.

O terceiro amplia a atuação internacional, com mais cooperação regional, diversificação de alianças estratégicas e presença ativa em organismos multilaterais, buscando maior influência nas regras globais.

Para Michelle Bachelet, copresidente da Comissão, a região possui riquezas naturais, industriais e humanas suficientes, desde que transforme potencial em políticas concretas, afirma o documento.

IA, clima e informações confiáveis no centro da agenda

A Comissão ressalta impactos da inteligência artificial, da transformação digital e da disputa tecnológica entre potências, com efeitos sobre produtividade, emprego, segurança da informação e competitividade.

O relatório adverte para riscos da desinformação e da crise de confiança nas instituições, que podem comprometer a qualidade da democracia e a formulação de políticas públicas baseadas em evidências.

No clima, a prioridade é preservar compromissos globais, dado que a região concentra biodiversidade, florestas tropicais, minerais estratégicos e grande potencial de energias renováveis e de baixo carbono.

Para o secretário executivo José Manuel Salazar-Xirinachs, a mensagem central é que “o mundo mudou”, e a América Latina deve adaptar estratégias para transformar o novo contexto em desenvolvimento sustentável.

Implicações para o Brasil e a agenda de Defesa

Embora econômico e institucional, o relatório da ONU dialoga com geopolítica, segurança e Defesa, ao valorizar recursos estratégicos, infraestrutura crítica, autonomia tecnológica e integração regional.

Para o Brasil, a estratégia sugere coordenação continental para proteção de cadeias de valor, impulso a inovação e transição energética, com diplomacia ativa e posicionamento pragmático na ordem multipolar.

Ao articular prosperidade econômica, fortalecimento institucional e capacidade internacional, a região pode proteger interesses, ganhar voz e reduzir vulnerabilidades em um cenário global mais competitivo.

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