Universidade prepara especialistas em tecnologia e defesa.

Falta de especialistas pode virar gargalo e atrasar programas de Defesa, apontam Cadernos da BID

A adoção de tecnologias como inteligência artificial, sistemas autônomos, gêmeos digitais, novos materiais e arquiteturas abertas deve ampliar a pressão por especialistas capazes de atuar em múltiplas áreas. Segundo os Cadernos Prospectivos da Base Industrial de Defesa (BID), a escassez dessas competências pode atrasar certificações, dificultar a incorporação de tecnologias e comprometer a sustentação de programas estratégicos de Defesa.

De acordo com os estudos, lançados em 19 de agosto em Brasília, a publicação é resultado de parceria entre a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Fundação Instituto de Administração (FIA/USP), com acompanhamento da ABIMDE. Os cadernos trabalham majoritariamente com um horizonte de cinco a dez anos.

Os documentos cobrem oito segmentos da BID e convergem ao indicar que inovação em Defesa será cada vez mais dependente de software, dados, conectividade, integração e validação. Nessa transição, a qualificação da força de trabalho torna-se fator crítico para transformar conhecimento em capacidade industrial e operacional.

Pressão por profissionais híbridos em cadeias estratégicas

Os oito volumes apontam a necessidade de ampliar a presença de profissionais híbridos, capazes de dominar interfaces entre hardware e software, engenharia e operação, dados e decisão, materiais e fabricação, bem como inovação e certificação. No setor aeroespacial, por exemplo, a mudança vai de um modelo centrado na plataforma para outro orientado por sistemas integrados, com ênfase em autonomia, engenharia de sistemas, arquiteturas modulares, materiais avançados, propulsão elétrica ou híbrida e digitalização do ciclo de vida.

Em armas e controle de tiro, ganham espaço sistemas baseados em IA, munições programáveis, manufatura aditiva, sensores eletro-ópticos e infravermelhos, soluções eletrônicas de disparo, cibersegurança de hardware e firmware e rastreabilidade. Já em munições, propelentes, explosivos, mísseis e foguetes, destacam-se novos propelentes, materiais nanoenergéticos, gêmeos digitais, engenharia baseada em modelos, guiagem apoiada por IA, proteção térmica e tecnologias hipersônicas.

Até os uniformes militares incorporam maior densidade tecnológica: tecidos inteligentes, sensores, proteção balística leve, tratamentos antimicrobianos, resistência térmica e química, controle de assinatura e rastreabilidade por RFID ou códigos digitais integram o vestuário a um sistema mais amplo de prontidão e logística.

O que muda na prática para a força de trabalho

Segundo os cadernos, a modernização não depende apenas da tecnologia disponível. Sem quadros capacitados para projetar, integrar, ensaiar, certificar, operar e sustentar sistemas complexos, projetos podem enfrentar limites na etapa de conversão do conhecimento em capacidade efetiva. As competências comportamentais ganham peso: resolução de problemas complexos, julgamento técnico baseado em dados, percepção de falhas, adaptabilidade, trabalho multidisciplinar, aprendizagem contínua e controle emocional.

Na defesa cibernética, a força de trabalho segue sendo ativo central e também fator de vulnerabilidade. Tecnologias como arquiteturas de confiança zero, IA defensiva, automação de resposta a incidentes, criptografia pós-quântica, segurança de sistemas ciberfísicos e inteligência de ameaças exigem profissionais aptos a supervisionar algoritmos, validar modelos e decidir em cenários de incerteza.

No segmento C4ISTAR (comando, controle, comunicações, computação, inteligência, vigilância, aquisição de alvos e reconhecimento), o foco tende a migrar de componentes isolados para funções de integração e validação, combinando engenharia, operação, dados, cibersegurança e governança. Em plataformas marítimas, fluviais e terrestres, gêmeos digitais, propulsão híbrida-elétrica, sistemas autônomos, proteção ativa, fusão de sensores, conectividade segura e manufatura aditiva aproximam áreas antes mais separadas, o que reconfigura competências ao longo de todo o ciclo de vida dos meios.

Formação contínua e previsibilidade industrial

Os estudos defendem que a resposta ao déficit de competências vá além da formação inicial. São recomendados cursos curtos e modulares, programas de requalificação, treinamento no trabalho, laboratórios compartilhados, simulações e intercâmbio com centros de excelência para atualização permanente dos profissionais.

Essa agenda depende, porém, de demanda industrial previsível. A volatilidade de orçamentos de Defesa, a interrupção de programas, restrições à exportação, a dependência de componentes estrangeiros e mudanças nas cadeias globais podem dificultar a retenção de especialistas e reduzir o incentivo das empresas para investir em equipes que levam anos para atingirem proficiência.

Responsabilidades de governo, empresas e ensino

As recomendações distribuídas pelos cadernos atribuem ao poder público a tarefa de dar maior previsibilidade aos programas estratégicos, financiar infraestrutura de ensaio e formação e articular educação, ciência, tecnologia, política industrial e Defesa. Às empresas cabe antecipar competências futuras, oferecer ambientes reais de aprendizagem, estruturar sucessão e investir de forma contínua em qualificação.

As instituições de ensino, formação profissional e ciência e tecnologia são vistas como peças centrais: atualização de currículos, docentes, laboratórios e metodologias, além de maior aproximação entre pesquisa aplicada e necessidades industriais. Em armas, controle de tiro, munições, mísseis e foguetes, os estudos destacam currículos multidisciplinares, capacitação regulatória para produtos controlados e bens sensíveis, intercâmbio técnico e parcerias entre empresas e academia. Produção regular, continuidade de programas e acesso a mercados ajudam a preservar equipes especializadas e o conhecimento acumulado.

Para os autores, a qualificação profissional integra a própria capacidade de Defesa. Mesmo com projeto, orçamento e infraestrutura, programas tendem a atrasar se faltarem engenheiros de sistemas, especialistas em certificação, técnicos de ensaio, profissionais de cibersegurança, integradores de dados ou operadores preparados para as novas tecnologias. A autonomia tecnológica, portanto, também depende da capacidade de formar, atualizar e reter pessoas.

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