Instabilidades em rotas marítimas internacionais podem chegar ao Brasil por meio de combustíveis mais caros, fretes elevados e atrasos na entrega de mercadorias. O risco envolve gargalos como o Estreito de Ormuz e a passagem de Bab el-Mandeb, além de áreas afetadas pela guerra entre Rússia e Ucrânia.
O impacto é relevante para a economia brasileira: o país importa aproximadamente 85% dos fertilizantes usados na agricultura. A exposição, porém, varia conforme a origem dos insumos, os contratos, os estoques e os corredores logísticos utilizados. Não há base para concluir que uma crise em uma rota específica provoque, por si só, desabastecimento no Brasil.
Como as crises nas rotas afetam o comércio
O Estreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, é estratégico para o transporte internacional de petróleo e gás. Restrições à navegação, ameaças a embarcações e disputas militares podem aumentar a incerteza sobre entregas e custos, mesmo sem interromper completamente o tráfego.
Na passagem de Bab el-Mandeb, que conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho, ataques contra a navegação associados ao conflito no Iêmen levaram embarcações a buscar rotas alternativas. O desvio pelo Cabo da Boa Esperança pode aumentar a distância e o tempo de viagem em algumas ligações entre Ásia e Europa. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento documentou efeitos dessas mudanças no tráfego e nas cadeias logísticas.
No Mar Negro, a guerra entre Rússia e Ucrânia ameaça a navegação e as exportações regionais, com possíveis reflexos sobre preços e entregas de insumos. Isso não significa que todas as importações brasileiras de fertilizantes passem por essa região: a exposição depende do produto, do fornecedor e da rota contratada.
Combustíveis, fretes e abastecimento
Uma crise em Ormuz pode pressionar os preços internacionais do petróleo e de derivados. Embora o Brasil produza e exporte petróleo bruto, permanece exposto à formação internacional de preços e às condições de abastecimento de derivados. Os efeitos sobre combustíveis e custos produtivos dependem também dos produtos e das políticas comerciais adotadas.
Para o comércio exterior, os riscos incluem aumento de fretes e seguros, menor disponibilidade de contêineres e maior tempo de entrega. A movimentação portuária brasileira chegou a aproximadamente 1,4 bilhão de toneladas em 2025, segundo dados oficiais do setor. O volume demonstra a relevância dos portos, mas não permite, isoladamente, calcular prejuízos causados pelas crises internacionais.
A China é um mercado importante para exportações brasileiras, sobretudo do agronegócio. Uma crise ampla no Indo-Pacífico poderia afetar demanda, portos e cadeias industriais, mas nem todas as cargas entre Brasil e China passam pelo Estreito de Malaca. Da mesma forma, restrições no Canal do Panamá relacionadas à disponibilidade de água afetam trajetos específicos, sem significar uma paralisação geral das exportações brasileiras.
O que a segurança marítima exige do Brasil
A instabilidade reforça a importância estratégica do Atlântico Sul, onde estão rotas comerciais, instalações portuárias, atividades pesqueiras e infraestrutura ligada à produção de energia. A Amazônia Azul, espaço marítimo de interesse brasileiro, demanda acompanhamento do tráfego e proteção de recursos e estruturas críticas.
A Marinha do Brasil desenvolve capacidades de consciência situacional marítima, incluindo o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) e iniciativas de integração de informações. Essas ferramentas podem apoiar a identificação de situações relevantes, mas não oferecem cobertura integral e infalível da região. Vigilância, patrulha, cooperação internacional e continuidade logística são tarefas complementares.
O Brasil não pode assegurar isoladamente a abertura de gargalos distantes, como Ormuz ou Malaca. A redução da vulnerabilidade depende de medidas articuladas nos campos militar, diplomático, comercial e energético, além do monitoramento de preços de energia e fertilizantes, fretes, atrasos e condições de abastecimento. Diversificar fornecedores e planejar alternativas pode reduzir a exposição, mas não elimina os riscos do comércio marítimo internacional.




