Proteger os sistemas digitais de um navio não significa apenas impedir o roubo ou a alteração de dados. Quando computadores controlam equipamentos e processos físicos, uma falha também pode afetar a operação e exigir atenção à segurança das pessoas.
Esse é um dos pontos examinados por Leonardo da Silva Pimenta no artigo Defesa Cibernética na Marinha do Brasil: Os desafios à Segurança Nacional, publicado na Revista Marítima Brasileira. O estudo trata da proteção de sistemas ciberfísicos, que combinam computadores, sensores e mecanismos de controle ligados ao funcionamento material de equipamentos.
Como os sistemas digitais se conectam aos equipamentos
Sensores coletam informações sobre um processo, computadores analisam os dados e atuadores executam comandos que produzem efeitos físicos. Em meios navais, essa integração pode estar presente em sistemas de propulsão e no monitoramento de equipamentos.
Por isso, a segurança desses sistemas não se limita à confidencialidade, à integridade e à disponibilidade das informações, princípios tradicionais da segurança da Tecnologia da Informação. Também é necessário avaliar consequências como riscos à vida humana, danos materiais, falhas e interrupções de funções importantes.
O tempo de resposta é outro fator. Algumas funções embarcadas dependem de comandos executados dentro de limites rigorosos. Atrasos ou interrupções que poderiam ser administráveis em sistemas administrativos podem comprometer processos de controle.
Atualizações exigem planejamento operacional
Manter sistemas atualizados pode ser complexo quando os equipamentos precisam operar continuamente. Uma correção de segurança pode exigir testes, compatibilidade com equipamentos especializados e planejamento para evitar interrupções indesejadas.
O artigo também observa que sistemas embarcados podem ter ciclos de utilização mais longos do que computadores convencionais, enquanto o suporte do fabricante pode terminar antes da substituição do equipamento. Assim, decidir sobre uma atualização envolve avaliar seus efeitos tanto digitais quanto físicos.
Gestão de riscos e limites do estudo
A gestão de riscos, segundo a análise, passa por identificar funções essenciais, avaliar as consequências de falhas e definir prioridades de proteção sem comprometer indevidamente o funcionamento do navio. Isso requer coordenação entre profissionais de operação, manutenção e segurança digital.
O estudo apresenta uma avaliação crítica de políticas e doutrinas examinadas pelo autor, mas não é uma auditoria atual da frota brasileira. Não comprova ataques recentes nem permite determinar quais medidas estão implementadas em cada navio.
Em 28 de maio de 2026, a Organização Marítima Internacional divulgou a revisão 4 de suas diretrizes sobre gestão de riscos cibernéticos marítimos. O documento recomenda incorporar essa gestão aos processos de segurança marítima e considerar riscos associados à digitalização, à automação e à integração de sistemas. A orientação é uma referência internacional, mas não comprova sua aplicação integral à frota militar brasileira.
A análise de Pimenta, publicada no volume 145 da Revista Marítima Brasileira, referente ao primeiro trimestre de 2025, ajuda a explicar por que a cibersegurança naval reúne tecnologia da informação, engenharia, manutenção e gestão operacional. O artigo foi disponibilizado no portal eletrônico da revista em maio de 2026.




