Um projeto de mineração marítima de potássio na costa de Sergipe poderá mobilizar mais de R$ 5 bilhões, segundo estimativa apresentada pela Agência Sergipe de Desenvolvimento, a Desenvolve-SE. A iniciativa da South Atlantic Potash (SAP) busca explorar depósitos de silvinita na Bacia de Sergipe-Alagoas.
O empreendimento tem relevância potencial para a indústria de fertilizantes e para o abastecimento do agronegócio brasileiro, que depende de fornecedores internacionais. Mas o investimento e a produção ainda são projeções: não há operação comercial anunciada, e a viabilidade do depósito precisa ser demonstrada.
O que foi identificado na costa de Sergipe
Segundo informações divulgadas pelo Governo de Sergipe, a SAP tem cerca de 189 mil hectares autorizados para pesquisa mineral e delimitou nove alvos exploratórios no Baixo Mosqueiro. A autorização para pesquisar não equivale a uma concessão de lavra nem comprova que exista uma reserva economicamente explorável.
Dados de poços históricos de exploração de petróleo e gás ajudam a caracterizar as formações geológicas da região. Quatro poços atravessaram o Membro Ibura, da Formação Muribeca, e registraram silvinita. Em um deles, o 1-SES-003-SE, foi identificada uma camada de 27,5 metros a aproximadamente 2,5 quilômetros de profundidade.
A espessura observada em um poço, por si só, não determina o volume total de minério recuperável. Novas sondagens e estudos precisam avaliar a continuidade das camadas, os teores minerais e as condições de extração. Também será necessário demonstrar viabilidade técnica, financeira, ambiental e regulatória.
Como funcionaria a mineração marítima
A alternativa estudada é a lavra por dissolução, método em que poços alcançam depósitos de sais e permitem formar uma salmoura, que depois é conduzida a instalações de processamento. Etapas industriais separariam os componentes de interesse, incluindo o cloreto de potássio usado em fertilizantes.
O desenho da operação ainda depende de estudos de engenharia, definição de instalações e infraestrutura de transporte. Entre os pontos a avaliar estão a integridade dos poços, o consumo de água e energia, a proteção dos ecossistemas marinhos e o tratamento de efluentes. O Governo de Sergipe cita modelagem hidrodinâmica e difusores para gerir a salmoura residual, temas que deverão ser examinados no licenciamento ambiental.
Investimento e produção são projeções
Relatório institucional da Desenvolve-SE menciona investimento estimado superior a R$ 5 bilhões e uma produção pretendida de até dois milhões de toneladas anuais de cloreto de potássio. Os números descrevem a ambição do projeto, não valores já executados ou capacidade instalada.
Sergipe já tem experiência na produção de sais de potássio, com o complexo mineroquímico de Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete. Esse histórico pode contribuir com conhecimentos regionais em geologia e serviços industriais, mas não elimina os desafios próprios da mineração offshore. A Bacia de Sergipe-Alagoas é uma unidade geológica, e os alvos informados pela empresa ficam na costa sergipana; não há confirmação de uma mina em águas de Alagoas.
O que pode mudar para o abastecimento brasileiro
Uma eventual produção nacional poderia ampliar as fontes domésticas de potássio e complementar o fornecimento às indústrias de fertilizantes e aos distribuidores. O efeito sobre as importações e os preços dependerá do volume produzido, dos custos de processamento e transporte, da infraestrutura, dos contratos e das condições do mercado. A proximidade de regiões agrícolas, inclusive áreas do MATOPIBA, não garante por si só fertilizantes mais baratos.
O potássio é um dos nutrientes usados na adubação agrícola, ao lado do nitrogênio e do fósforo. A dependência brasileira de fertilizantes importados expõe o abastecimento a oscilações de preços, câmbio e logística internacional. Uma nova fonte nacional poderia diversificar essa cadeia, mas não tornaria o país autossuficiente nem reduziria a dependência externa automaticamente.
Os próximos marcos incluem novas sondagens, estimativas técnicas dos recursos, estudos de engenharia e viabilidade, licenciamento e estruturação do financiamento. Até que essas etapas sejam concluídas e uma decisão de investimento seja tomada, os valores e volumes divulgados devem ser entendidos como projeções, não como produção ou movimentação econômica já concretizadas.




